Como NÃO se tornar um redator publicitário

0

Quem se preocupa com texto hoje em dia, certo? As pessoas estão sempre correndo, não prestam atenção em nada, só ligam para anúncios bonitinhos com imagens que explodam na cara delas. Portanto, devemos fazer um esforço de NÃO nos tornarmos redatores publicitários, correto?

Que tal começamos pelas referências? Temos que esquecê-las. Esqueçam as exposições de pinturas e esculturas, as sessões de cinema de arte e os blockbusters, os livros clássicos em que se fundamenta a cultura humana e os best-sellers do momento, todo o conhecimento musical; nada disso importa. É melhor manter a mente vazia. Embora, claro, se você assumir uma atitude budista de esvaziamento de si mesmo, que até poderia cooperar em seu processo de concentração e descoberta de seu lugar no universo, pode ser que isso colabore em se tornar um profissional do ramo que você não quer ser. Cuidado.

Também deixe para lá a cultura inútil e do cotidiano. Ela é outra parte das referências. Uma parte perigosa. Se você ignorá-la, com certeza NÃO será um redator. Quem não sabe que os melhores slogans, insights para campanhas, frases memoráveis e outras bruxarias deste gênero vieram da tia da padaria, do cobrador do ônibus, do bebum do bar, ou da dona de casa que manja muito mais de sabão em pó do que você jamais vai manjar, mesmo sendo um especialista em criar propaganda para vendê-lo.

Por favor, ou melhor, por favor não, isso é uma ordem: não se interesse por descobrir de onde vem a criatividade. Você já eliminou as referências. Deixe de olhar também com um olhar crítico, com uma postura de por que este objeto está onde ele está. Não tem por que você insistir em descobrir de onde vem a criatividade. Você NÃO quer ser um redator, qual a importância de sacar isso?

A propósito, as sacadas. Quem precisa delas? Quem precisa delas quando o cliente pedirá uma comunicação genérica, feita de palavras e expressões como “qualidade”, “segurança” e “novo conceito”? Você NÃO quer se tornar redator porque não é necessário. Pode se conformar com a primeira frase que vier a sua cabeça, uma combinação tosca de adjetivos e gerúndios.

De preferência, abdique do português. Não leia nada neste idioma que seria sua ferramenta principal, caso quisesse se tornar um redator publicitário. Qualquer um poderá identificar seus erros. Sempre há um revisor, planner ou o próprio CEO da agência que vai pegar suas falhas. De fato, não importa. Imagine estar preparado e dominar todos os zilhões de regras do velho portuga sempre que alguém lascar uma pergunta à queima roupa, do tipo: na nova ortografia, redator, tal situação vai hífen ou não?

Melhor NÃO ser redator. O que sua mãe vai dizer para as amigas dela? Meu filho escreve aquelas cinco palavras que vão naquelas placas grandes, sabe? Ele trabalha tanto.

Não, nada disso. Poupe ela da vergonha. Poupe a si mesmo. Ou faça tudo ao contrário e se torne um, por sua conta e risco.

Share.

About Author

Idealizador do site Homo Literatus, além de apresentador do programa de televisão LiteratusTV, do podcast 30:MIN e das séries de vídeos QuestionBook e A Arte de Contar Histórias Por Escrito. Tem contos publicados na Revista Flaubert #06 e #11 e no portal hispânico CuentoColectivo. Finalizou um romance que pretende publicar em 2015.

Leave A Reply