Faculdades vs. Escolas de criatividade

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Quem é atualmente um estudante de publicidade, vive em uma época ingrata.

Deixe-me explicar. Você, que cursa publicidade, teve a infelicidade começar a fazê-lo justamente em uma época de transição. Se tem uma coisa que aprendi na faculdade até hoje, é que não existe jeito pior de se aprender publicidade. Juro, 10% do que me foi ensinado por ali foi realmente útil. 10% de 4 anos é muito pouco.

Minha explicação para isso é a de que o modelo de ensino de uma universidade não supre mais (se é que um dia supriu) a demanda de ensino de um aluno de comunicação. Se o que precisamos saber pra exercer nossa profissão muda constantemente e na velocidade da luz, a capacidade da grade do curso de se adaptar a isso é praticamente nula. Isso cria um enorme gap entre o que é ensinado em um curso de faculdade e o que você encara quando de fato entra no mercado.

É aí que entram as escolas de criatividade. Antes de entrar neste tópico, gostaria de avisar que, a partir deste momento, o texto se aprofundará mais nas mazelas do estudante que quer trabalhar com criação, mas se você quiser trabalhar em qualquer outra área, isso serve pra você também ficar esperto.

Bom, de uns anos para cá, as escolas de criatividade ganharam força no Brasil, principalmente nas regiões Sudeste e Sul. Com desde cursos mais gerais, que abordam a criação publicitária de forma ampla, e cursos mais específicos, que focam em redação ou direção de arte, elas impõem desafios muito mais próximos do mercado e vêm com a proposta de realmente ensinar o que você precisa para trabalhar com criação em uma agência. Além disso, quem te dá aula são profissionais de grandes agências do mercado. Você aprende com quem está lá no dia a dia, além de fazer o tão desejado networking. Não vou entrar no mérito de se essa promessa é cumprida ou não pelas escolas de criatividade, mas apenas esta proposta de ensino, para mim, já é suficiente para desbancar qualquer curso de publicidade nas faculdades mais tradicionais.

“Mas então eu que ainda estou para começar a faculdade posso esquecer essa ideia e me matricular logo em uma escola de criatividade?”

É… não. Pois é, essa é a tal transição da qual eu estava falando. O curso de publicidade não é mais tão relevante para garantir a sua entrada no mercado de trabalho, mas não também não perdeu sua importância o suficiente para você não ter que fazê-lo.

Acontece que essa moeda tem dois lados, e quando jogada pro alto, pode cair no seu olho.

Infelizmente, a faculdade ainda abre algumas portas fundamentais que lhe permitem se candidatar para muitas vagas de emprego e assim, entrar no mercado de trabalho. Afinal, vagas de estágio pedem que você esteja cursando uma graduação. Para mim, o lado bom da faculdade acaba aí (sério, parece que perdeu a utilidade desde que eu consegui meu primeiro estágio na área).

Existe, porém, um aspecto sobre as escolas de criatividade que me preocupa: elas são boas, mas caras. Não digo isso só por causa do coitado do meu bolso, digo isso por todos. Nas andanças pelas grandes agências aqui de São Paulo, já ouvi incontáveis relatos de amigos meus que pediam dicas aos profissionais de criação. Em 99% desses relatos, constava na resposta do criativo uma grande escola de criatividade cujo nome não vou dizer, mas que tem como símbolo um flamingo rosa.

Resumindo: fazendo uma faculdade, você pode trabalhar em qualquer agência, até nas grandes, se você se esforçar. Agora, se você fizer um curso em uma escola de criatividade, você pega um atalho e já pode ir direto para uma das grandes, pois este tipo de curso — e essa escola do flamingo em particular — são muito bem vistos por aí. É como comprar um daqueles DLCs em um jogo.

O que não pode acontecer — e esse é o meu receio — é que fazer um curso em uma escola de criatividade torne-se um requisito para trabalhar com publicidade, porque aí, só quem tiver a di$posição de pagar 3 mil reais por mês vai poder exercer a profissão, provocando uma elitização (ainda maior) da mesma.

Vivemos em uma época ingrata porque acho que não há muito como fugir disso agora. Resta apenas aguardar e ver o que vai rolar no futuro. Será que as escolas de criatividade vão tomar totalmente o papel das faculdades, expandindo seus portfólios de cursos e oferecendo opções mais baratas ou será que as faculdades vão se tocar e começar a ter grades mais flexíveis? Não sei exatamente o que vai acontecer, mas sei que do jeito que está não fica. As faculdades estão dando um tiro no pé ao preparar tão mal seus alunos, que saem decepcionados com o curso e, lá na frente, quando estiverem na posição de quem contrata, apenas não darão a mínima para se quem está começando tem graduação ou não.

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Sim, já ouvi todos os trocadilhos possíveis com o meu nome (inclusive pensei vários deles eu mesmo). Sou redator publicitário, gosto de café, filmes, café, séries, café, escrever (dã), café, cerveja e café. [Insira frase com sacadinha e piada pra finalizar a descrição].

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