Je suis Paris e como as redes sociais deram voz a legião de imbecis

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Antes de começar a leitura, alguns avisos:

Se você ficou de cara com as pessoas trocando a foto de perfil do Facebook pelos atentados em Paris, esse post é pra você.

Se você trocou sua foto de perfil pelos atentados em Paris, esse post também é pra você.

Agora, se você não tem nem ideia do que rolou em Paris, bem, pare de ler esse post e vá se informar.

Avisos feitos, vamos ao que interessa. Diante das atrocidades que aconteceram na Paris neste último final de semana, milhares de pessoas ao redor do mundo trocaram suas fotos de perfil pelo filtro com a bandeira da França. Já ficando famosa, essa ferramenta do Facebook ajuda pessoas a mostrar “solidariedade” com diversas causas, como a liberação do casamento gay e a liberdade quanto ao aborto. O grande problema disso é que hoje, mais do que nunca, parece ser quase um crime demonstrar solidariedade a alguma causa.

O Facebook se dividiu entre pessoas atemorizadas por Paris e outras tantas condenando quem se expressou assim sobre o caso. Sabemos que há diversas causas merecedoras de atenção no mundo, ocorrendo juntamente aos problemas recentes de terrorismo: o rompimento das barragens em Mariana/MG, o ataque na universidade no Quênia, o constante abuso/extermínio/recrutamento de crianças no Congo, os bombardeios no Líbano e outros, vários outros. Como alguém vai demonstrar solidariedade a um país rico de primeiro mundo quando temos problemas tão grandes no nosso quintal? Nos atentados de Paris, 120 mortos até agora. No Brasil, média de 143 mortos por dia, apenas em assassinatos.

E a galerinha postando foto da bandeira da França.

Bando de imbecis.

Mas posso te dizer uma coisa? Eu fiz o mesmo!

Dentre outras razões, na minha humilde opinião, os atentados em Paris foram contra a humanidade. Lá, estavam pessoas de vários países. Liberté, egalité e fraternité não são valores apenas dos franceses, são (deveriam ser) valores do mundo. Foi um atentado do extremismo religioso cego contra a liberdade individual (não, não teve nada a ver com religião). Foram explosões de fúria contra a paz. Tiros de ódio contra o amor. Os atentados foram, em suma, contra nós. Contra todos nós.

Mas…

As outras atrocidades no mundo também foram atentados contra a humanidade? Sim. A França é um país rico? Sim. Eles já invadiram, colonizaram e aterrorizaram outros países? Sim. Outros problemas do mundo são tão ou até mais importantes do que os ataques? Sim. Eu deveria me importar e solidarizar com várias outras causas? Sim. Eu tenho o direito de julgar e comparar as proporções das tragédias? Sim.

Eu deveria fazer isso?

NÃO. Simplesmente não.

O Facebook (assim como qualquer outra rede social) é uma ferramenta de expressão. As pessoas possuem todo o direito, ou a possibilidade, de falarem o que quiserem lá. Até mesmo de julgarem. O que muitos esquecem é que ter a possibilidade não significa que alguém deva exercê-la. Se seu amigo mudou a foto de perfil ou não, qual o problema? É porque a pessoa fez isso que não se importa com os milhares de afetados em Minas? Acredito que não.

Sinto que há uma frustração geral nas pessoas e uma necessidade de descarregá-la, acentuada, claro, na internet. Vi diversos comentários que obviamente não tiveram reflexão alguma por trás. Coisas estúpidas que soaram como os tiros contra as pessoas em Paris ou a a enxurrada de lama em Mariana. Umberto Eco disse que a internet deu voz aos imbecis. Vou mais além, acho que a internet deu voz à imbecilidade. Há uma grande diferença nas afirmações.

Talvez, por estar escrevendo isso, eu seja um imbecil. Talvez, você lendo, também. Indiferentemente, torço pra que haja alguma – muita – reflexão sobre as ideias que adotamos. Eu tive as minhas antes de alterar minha foto de perfil, espero que tenha as suas antes de curtir ou condenar este texto. Independentemente de sua opinião, reflita criticamente sobre ela.

Não sei bem onde queria chegar escrevendo tudo isso. Talvez este seja um dos meus piores textos. Talvez um dos melhores. Sem dúvidas, acho que foi um dos mais verdadeiros. Ele não tem nada a ver com comunicação, mas ele tem tudo a ver com comunicação. Eu sou um imbecil. Eu sou um gênio. Eu sou um crítico, uma vítima e um possível terrorista. A cada palavra, pensamento e atitude, eu sou eu. Eu me torno mais eu.

Termino esse desabafo com um poema brilhante que li no Artparasites:

“Eu sou um terrorista.

Eu sou a bala que calou uma cidade inteira trazendo medo onde deveria haver apenas paz.

Eu sou um terrorista.

Eu sou o candidato que se matou explodindo em nome de que Deus no Stade de France durante a partida de futebol.

Eu sou um terrorista.

Eu sou meus pais que eu condeno às vezes por serem racistas sem se dar conta que eles apenas temem o desconhecido.

Eu sou um terrorista.

Eu sou a voz das pessoas gritando e escapando pelas janelas do Bataclan Theatre enquanto os atiradores estavam cegamente atirando na multidão.

Eu sou um terrorista.

Eu estou aterrorizado.

Eu estou aterrorizado porque, apenas estudando a segunda guerra, eu já chorava pela dor que sentia.

Eu estou aterrorizado porque eu sou um escritor, não um soldado, um político, não um homem forte, não um corajoso.

Eu estou aterrorizado porque eu pensei que eu estaria seguro me preocupando apenas com meus inimigos.

Eu estou aterrorizado porque estou percebendo que os inimigos estão vindo de ambos os lados da fronteira que é meu corpo.

Eu estou aterrorizado porque eu não quero me tornar um terrorista quando chegar a hora de levantar nossas bandeiras lutando por nossos países.

Eu estou aterrorizado porque o presente está se tornando história escrita nos livros de nossas crianças.

Eu sou um terrorista.

Eu estou aterrorizado.

Eu sou um terrorista.

Eu estou aterrorizado.”

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About Author

Um pouco de Linklater, Allen, Nolan e Scorsese. Mais um bocado de Freud, Jung, Zizek, Mckee e Campbell. Ainda um pouquinho de todas as pessoas que já conheceu. Talvez um pedaço de você. Muito do mundo, da rua e da vida. E absolutamente tudo do que emociona.

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