Life Is Strange e a imersão dos videogames

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Videogames tornaram-se extremamente significativos em nossas vidas. Aqueles que nasceram do ano de 1980 para cá, provavelmente estabeleceram alguma conexão com algum jogo, em algum momento de suas vidas. Seja nos emaranhados de pixels coloridos e pulsantes do Atari, seja na sofisticação e realismo oferecido por consoles de última geração como o Xbox One. Videogames tornaram-se narrativas que possibilitam a imersão em universos inteiros apenas com o uso de joysticks e teclados.

A desenvolvedora francesa Dontnod é uma dessas empresas que como num passe de mágica consegue transformar um simples jogo, em uma experiência única de vida. Lançado no começo de 2015 pela companhia europeia, em parceria da gigante Square Enix (desenvolvedora do clássico Final Fantasy), Life Is Strange é um jogo de escolhas e consequências que definitivamente mudou minha vida.

Max Caufield é uma jovem fotógrafa que acaba de ingressar num colégio de artes para estudar fotografia. A garota precisou sair da agitação de Seattle e voltar para sua terra natal, a fictícia Arcadia Bay, para ingressar na Academia Blackwell, onde grandes nomes da fotografia lecionam. Logo em sua chegada, Max descobre que consegue voltar no tempo, ao presenciar sua melhor amiga, Chloe Price, ser assassinada a sangue frio por Natham Prescott, um estudante mimadinho, cujo pai praticamente manda em Arcadia Bay.

319630_screenshots_20160524001817_1A partir daí, Max e Chloe brincam de voltar no tempo numa versão hipster e cativante de Marty McFly e Dr. Emmett Brown, do icônico filme De Volta Para o Futuro. Nesse ínterim a narrativa ganha força na investigação do sumiço da estudante Rachel Amber. O enredo parece ser simples, e realmente é. Não a nada que não tenha sido visto anteriormente em filmes, livros e até mesmo em histórias em quadrinhos. Inclusive, esse argumento daria uma ótima série. Netflix, fica aí a sugestão. Oops, Stranger Things já foi lançado e conta com elementos vagamente parecidos!

Voltando ao game, o que realmente prende o jogador nos cinco episódios em que Life Is Strange é dividido, é a atmosfera que a equipe da Dontnod deu para cada personagem, lugar e os mistérios e auras que os permeiam. Além do mais, com a opção de constantemente voltar no tempo, o jogador pode aprender sobre mais alguma situação, muda-la, ou simplesmente ignorá-la. E acredite, suas decisões pesam.

Repleto de easter eggs e referências culturais, Life Is Strange é uma ode a filmes “mind blow” de viagem no tempo e buracos de minhoca, como Donnie Darko, Efeito Borboleta e Mr. Nobody. Alusões a seriados de mistério dos anos noventa, como Twin Peaks e Arquivo X também estão lá, e literalmente estampadas em placas de alguns veículos que aparecem durante o jogo! Independente de todas essas referências, o principal objetivo do jogo é que você sinta-se na pele de Max e sua fiel escudeira Chloe.

Mesmo que produzido sob baixo orçamento, o trabalho estético e fotografia do jogo são mirabolantes. Esqueça gráficos absurdos que toda engine recente pode oferecer. O jogo sabiamente optou por um trabalho de pintura digital coordenado por Michael Koch, diretor de arte também responsável pelo trabalho visto em Remember Me, outro jogo desenvolvido pela Dontnod em 2013.

A dublagem é o outro ponto forte do game, que mesmo mal sincronizada não deixou nada a desejar. As vozes caem como luvas para os personagens, tornando inegável o nível de carisma e afinidade que todos os personagens transmitem. A dubladora de Chloe, por exemplo, Ashly Burch, recebeu o prêmio de melhor performance pelo Golden Joystick Award, em outubro de 2015. Á título de curiosidade, Ashly além de dubladora, é atriz, youtuber e roteirista, inclusive ela chegou a trabalhar escrevendo episódios do divertido desenho Hora de Aventura.

A trilha sonora a meu ver é o ponto alto de todo o material. Composta por Jonathan Moralli, da banda Syd Matters, e regida integralmente por bandas indie e lo-fi, as canções trazem a mesma sensação de quem assistiu séries como The O.C. e Skins e saiu por aí pesquisando de quem eram aquelas ótimas canções. Em um dos desfechos do game, em especial o qual eu segui, o jogo finalizou-se com uma de minhas canções favoritas, e eu nem preciso dizer o quanto isso foi especial.

E é justamente esse sentimento especial que Life Is Strange consegue envolver e trazer para o jogador. Durante uma de minhas escolhas me senti absurdamente arrependido. E olha que a qualquer momento eu poderia simplesmente “rebobinar a fita” e refazer a escolha. Mas por uma força maior decidi manter minha decisão. Que outro jogo te daria a opção de escolher o que viria a seguir, e mesmo assim você optaria por arriscar?

319630_screenshots_20160510231921_1Quem procura por muita ação ou estratégia constante pode se decepcionar com Life Is Strange. O jogo no fim das contas é uma forma de aprendizado sobre como as escolhas, e o peso delas, podem influenciar-nos em diversos níveis. Uma ótima sugestão para quem se encontra naquele ponto crucial, onde o jovem precisa abandonar a criança, e aceitar de vez, o adulto que emerge com iminência dentro de si próprio. Quando o certo não sobrepõe o errado, e vice-versa.

Se esse texto serviu para instigar sua curiosidade sobre esse jogo, aproveite que a Dontnod decidiu distribuir gratuitamente o primeiro episódio de Life Is Strange. Ele está disponível nas plataformas de PS3, PS4, Steam, XBox 360 e XBox One. E se vocês gostarem, e eu lhes asseguro que irão, não hesitem em comprar as demais quatro partes. A vida é estranha. E os videogames nos permitem torná-la ainda mais.

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