A tecnologia, nós e o paradoxo do século XXI

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No último final de semana,  li uma pesquisa que me causou um certo ar de perplexidade e resolvi que a minha reflexão sobre ela seria o texto dessa semana. A revista EXAME desse mês trás uma reportagem muito interessante sobre startups e a tecnologia crescendo e assumindo o protagonismo nos grandes conglomerados de negócios no mundo, porém, o que me chamou atenção não foi o tema da matéria em si, mas sim uma das passagens da reportagem e, em específico, os dados de uma pesquisa feita pela Nielsen Ibope, AT&T e BCG. Sendo sucinto, a matéria justificava o crescimento desses business através da nossa incrível e ainda crescente dependência da tecnologia no dia-a-dia. Até aí, nada de mais, todavia, foi a reportagem trazer o smartphone como um dos exemplos de dependência da tecnologia para eu me assustar. Digo isso porque os jornalistas utilizaram uma pesquisa dos institutos citados acima para embasar o argumento e, olha, o resultado foi, no mínimo, reflexivo.

Segundo a pesquisa encomendada pela revista, 38% dos entrevistados prefere ficar um ano sem sexo a largar o celular pelo mesmo período. E esse nem o pior dado, na minha opinião. De acordo com a mesma pesquisa, 45% preferem deixar de sair com os amigos por UM ANO a parar de utilizar o smartphone pelo mesmo período de tempo. Não sei você, mas ao olhar essas estatísticas foi impossível não refletir sobre a situação que a sociedade chegou. A tecnologia tem um parcela importantíssima em diversas conquistas e avanços dos últimos anos, é claro. Mas nunca paramos para pensar no que abrimos mão para ter uma vida, em teoria, mais confortável. Não me entenda mal, não sou contra a tecnologia. Também tenho celular, tablet, computador e utilizo das modernidades para o meu conforto, mas nunca pensei nas coisas que abri mão para ter todo esse ‘comodismo’. É essa, justamente, a minha intenção com esse texto. Você já pensou nas coisas simples que deixou de fazer desde que os gadgets tecnológicos entraram na sua vida?

Para começar essa confusão de pensamentos na sua cabeça, deixo aqui um pedaço da minha conversa com um amigo (grande Hermes!), que mostrou um ponto de vista muito importante de ser analisado e que nos leva ao paradoxo do século XXI, que mencionei no título. A primeira coisa é pensar na pergunta que esse meu amigo me propôs; ‘se saíssemos na rua agora e formos de casa em casa, batendo porta por porta e pedindo para que as pessoas escolham entre ganhar um iPhone 6S novinho ou ir visitar um amigo de longa data e que há muito não vê, qual resposta você acredita que seria a mais escolhida?’. Parafraseando meu colega, “acho que a resposta irá te surpreender”. Principalmente depois da pesquisa que a EXAME mostrou em sua matéria, não acho nada difícil a maioria das pessoas escolherem o iPhone. E é aqui que vem o paradoxo, ao preferirmos em nossa vida pessoal a tecnologia às pessoas (ao escolhermos o distante ao perto), não é estranho percebermos a tendência e a necessidade de humanização nas empresas? Se de um lado tentamos humanizar as coisas (entenda aqui como se tratando de empresas, marcas, produtos, relação com o consumidor), ao mesmo tempo forçamos a coisificação dos humanos (e aqui é no sentido bem literal, onde preferimos uma conversa pelo whatsapp a um bom bate-papo convencional).

Para não alongar demais a conversa, até porque acho que ja dei material suficiente para pensarmos ‘onde raios nós chegamos?’, fica aqui meu convite para refletir sobre essa situação que nós mesmo construímos. O smartphone assumiu uma posição de necessidade muito acima da real dependência que temos dele? As interações digitais se tornaram mais prazerosas que as físicas? Até que ponto conseguimos coexistir e construir um ambiente socioeconômico sustentável com essa dualidade paradoxal de coisificar humanos e humanizar coisas? E por último, deixo a mesma pergunta que EXAME deixou ao fim de sua matéria; “quantas vezes você olhou no celular até terminar de ler essa matéria?”.

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Busco a simplicidade no complexo e vice-versa. Em tudo. Sempre. A unicidade (seja na visão ou na aplicação) me instiga/provoca, incessantemente, a desvendar um par, um oposto, uma contradição ou, até, um "ponto de fusão". Seja para complicar, seja para simplificar. O que seria da vida com um só ponto de vista?

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