7 dicas de José Luís Peixoto para escrever

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“Aqui, agora, eu não sou eu. Você não me conhece só porque eu estou aqui e você aí. Essa é só uma ideia, das mil ideias que você pode ter sobre mim. Para ser o contrário, teríamos de ter vidas muitíssimo diferentes. Precisaríamos nos conhecer por muito tempo, apenas para você ter uma ideia um pouco melhor de mim. Mas eu sou outro.”

Foi assim que um dos nomes mais importantes da literatura portuguesa contemporânea definiu nosso encontro. José Luis Peixoto já foi vencedor do Prêmio José Saramago, tem 14 livros publicados e sua obra está traduzida para mais de 20 idiomas. Num bate-papo descontraído e inspirador, o português falou sobre sua vida, carreira, motivações e deu dicas importantes para quem quer escrever.

Com um currículo impressionante, poderíamos pensar que José é daquele tipo de escritor esnobe, cheio de não-me-toques e musas inspiradoras. Que nada! Ele é um cara extremamente humilde, divertido, cheio de tattoos e piercings e com aquele sotaque engraçado pra caramba. E como dizemos aqui nos sul, um baita escritor. Entre seus livros mais famosos, estão Morreste-me e Galveias. O primeiro é uma homenagem sincera e emocionante a seu pai. O segundo é um romance homenageando o lugar em que cresceu.

Nessa conversa que tivemos, organizei algumas lições importantes que ele, querendo ou não, acabou me passando.

Dito isso, ora pois, aqui vamos!

1 – Os problemas da escrita são como os problemas da vida.

Escreva apenas sobre o que é essencialmente importante para você. Assim, não há como perder seu tempo, pois será totalmente sincero. Escrever é colocar no papel palavras que descrevam alguma coisa, algo verdadeiro.

“Eu comecei a escrever Galveias pelo título, pois ele significa algo para mim e para as pessoas de lá, que eu conheço. São umas mil pessoas. Parece pouco, mas são mil que me importam.”

2 – Observe a vida.

Um texto começa pelo início, obviamente. Mas e a escrita? Essa, bem, começa muito, mas muito antes do texto. Escrever não é só datilografar. A escrita começa em uma visão, uma epifania. É quando aquela coisa nos toca. É aquele enamoramento instantâneo que surge. E isso pode ser qualquer coisa. O primeiro passo para escrever um texto é contemplar. Deve-se sempre estar atento.

“O fato é que, para escrever, você precisa encontrar motivação, e não largá-la jamais. Até o próximo texto.”

3 – Escrever é escrever e ponto.

Caso contrário, é uma fraude. Qualquer coisa ruim é melhor do que coisa nenhuma, então, trabalhe. Não é fácil, mas funciona.  O processo de escrita é algo impartilhável. Angustiante às vezes. Por mais que você viva mil anos com uma pessoa, nunca conseguirá dividir de fato essa experiência com ela. Desfrute esse tempo como um encontro com você mesmo. As chances de se apaixonar são grandes. Escreva! Escreva! Escreva!

“Todos os meus exercícios de escrita são sempre mergulhados. Eu estou sempre lá. É um pouco egocêntrico, hehe. Mas estou bem com isso.”

4 – A temível folha em branco.

E o que fazer quando nos deparamos com a folha em branco? Olhamos para ela, ela olha para nós, e nada. Nenhuma ideia. Parece que a fonte secou. Para evitar isso, notas são importantes. É legal ter um caderno para cada projeto. Mas e quando não se está no meio de um? Tenha um caderno para anotar frases, suposições, coisas legais da vida. Quando bater o pavor, procure nele o que precisa.

“Numa sala de espera, olhe um desconhecido e o imagine tendo um orgasmo. Ou chorando compulsivamente. Ou qualquer outra coisas humana, afinal, os personagens se mostram pelos seus atos, e não pelo que dizemos ou descrevemos deles.

5 – Se preocupe com a escrita, não com a leitura.

Na escrita, o que damos ao outro é um molde, mas quem vai preencher o molde é o leitor, com suas definições e experiências. No entanto, um texto sem leitor não significa nada. Falar isso é um pouco clichê, mas é real. Simples assim. De fato, é um erro perder demasiado tempo pensando em quem é nosso leitor. Lembre-se, a escrita é nossa, a leitura não.

“Meu leitor pode ser aquele cara que nascerá daqui a 20 anos. Então eu escrevo sobre o que quero dizer. A leitura será dele e de sua época.”

6 – Receba as críticas positivas com humildade, e as negativas com altivez.

Quando se aceita um, tens de se aceitar o outro. Contar sua história a outra pessoa ajuda nesse processo. Você se obriga a organizar os elementos e tem a reação do “leitor” ao vivo. Não se engane, porém, com amigos que achem tudo uma beleza. Se você encontrar aquela pessoa que te critica, leia para ela. Veja os pontos que ela não gosta e analise os motivos. Além disso, leia para você mesmo em voz alta. Isso é essencial para detectar problemas na escrita.

“Se, em sua escrita, tudo for espetacular, desconfie! A escrita tem de doer!”

7 – O sentido de tudo é a realização.

Se você não tiver tempo para escrever, você não irá escrever. Quando digo isso, falo em disponibilidade mental. Se você não estiver disposto, pode fazer de tudo, mas não irá colocar histórias no papel. Quando estiver sem motivação, a melhor solução é dar um tempo. Por mais que você durma, o inconsciente continua a trabalhar. E quando você vê o resultado de um trabalho feito com esforço e dedicação, a catarse acontece. Nesse contexto, o que mais me marcou na fala de José Luís Peixoto, foi uma pergunta. Ela ainda está comigo, assim como espero que fique com você. Pra sempre.

“Não quero que vocês me respondam isso, mas quero que pensem. Por que você quer escrever?”

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Um pouco de Linklater, Allen, Nolan e Scorsese. Mais um bocado de Freud, Jung, Zizek, Mckee e Campbell. Ainda um pouquinho de todas as pessoas que já conheceu. Talvez um pedaço de você. Muito do mundo, da rua e da vida. E absolutamente tudo do que emociona.

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