Desculpe, mas o mundo real não segue os cases de Apple e Starbucks.

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É inevitável, ainda mais quando se estuda publicidade, administração ou qualquer outro curso que entre no mundo dos negócios, que sejamos seduzidos pelos grandes cases de sucesso de sempre. Quem nunca buscou referência nos cases da Apple, quando discutia com um amigo, ou mencionou as estratégias de comunicação de Starbucks quando tentava justificar um ponto com alguém mais velho e/ou com outra formação? Conhecer essas histórias e buscar inspiração nelas é ótimo e faz parte do aprendizado, porém é natural que se chegue em um ponto da vida – normalmente ao final da faculdade – que uma pergunta simples insista em passar, repetidamente, em suas cabeças. “Certo, esses cases são espetaculares e fantásticos, mas é essa mesma a realidade lá fora? Dá pra repetir essas estratégias?” A resposta, infelizmente, é não. E é sobre isso que resolvi discutir hoje.

Se ao invés de Steve Jobs, uma outra pessoa qualquer falasse as mesmas coisas para os funcionários da Apple; você acha que daria certo?

Seja na seção de negócios de uma livraria ou em aulas na faculdade ou MBA, somos sempre direcionados a estudar as estratégias e ações dos grandes cases de sucesso do mundo corporativo – os famosos clichés Apple, Google e Amazon, por exemplo. Não sou contra estudá-los, pelo contrário, devemos conhecer e aprender as estratégias que fizeram dessas marcas as gigantes que são, mas não se pode ficar olhando apenas para elas. Como disse na introdução, quanto mais tempo você vai passando imerso nesse mundo, mais e mais vai ficando tarimbado sobre essas estratégias, todavia, chega um momento em que elas não são mais tão factíveis. Quando se começa na faculdade tudo é possível, tudo é simples e passível de ser feito, porém, com o passar dos anos e com o envolvimento no mercado de trabalho, é natural que percebamos que nem tudo é viável financeiramente, que algumas decisões só poderiam ser realmente tomadas por pessoas como Steve Jobs ou Howard Schultz ou que simplesmente são ideias impraticáveis por gestão de negócios. É nesse momento que se faz importante aquela pessoa que soube observar outros cases de sucesso – então fique esperto, porque esse momento aparece/aparecerá diversas vezes na sua vida.

Se ao invés de Steve Jobs, uma outra pessoa qualquer falasse as mesmas coisas para os funcionários da Apple; você acha que daria certo?

Quem disse que um negócio que não fatura US$ 100 milhões não é um case de sucesso? Quem disse que um empreendedor que decidiu ficar com apenas uma loja ao invés de criar uma rede gigantesca não é um case de sucesso? Quem disse que esses empreendedores não merecem serem ouvidos e que não podem nos ensinar coisas fantásticas? Algo que busco com muito afinco no dia a dia é isso; conhecer negócios e histórias empreendedoras menores, que não possuem tanta fama, porque eu as vejo como histórias mais reais, mais praticáveis e passíveis de replicação. Não me leve a mal, acho fantásticos os cases do Vale do Silício, mas os vejo como um tanto quanto utópicos. Jamais conseguiria aplicar a maioria das estratégias deles em 90% das empresas que conheço – por conta de investimento, mobilidade, pessoas, visões e etc. Isso é algo que vejo com muita clareza atualmente, nós devemos nos ater a aprender cada vez mais sobre os empreendimentos do nosso lado – aquele vizinho que tem um bar diferente, aquela amiga que abriu um café super descolado e por aí vai. Conhecer grandes histórias é essencial, mas ter uma visão completa de um empreendedor que investiu um valor ‘normal’ e imaginável no seu negócio e deu certo é mil vezes mais enriquecedor. Hoje eu vejo MBA’s e Pós-Graduações como itens primordiais no currículo de um bom profissional, mas também enxergo uma falha muito séria. Enquanto não forem abordados cases mais reais e mais próximos, que mostrem estratégias inteligentes e mais de acordo com nossa realidade, estaremos aprendendo apenas um punhado de ferramentas muito legais, mas que poucos terão oportunidade de usar. No mínimo, se paga para conhecer táticas impraticáveis na grande maioria das empresas do mundo.

Venho com essa ideia de que grandes cases de sucesso de nada vão me ajudar, além de pintar um cenário idealizado de possibilidades e ferramentas, há algum tempo. Mas tudo se tornou mais palpável quando conheci o livro ‘Road Side MBA: Back Road Lessons for Entrepremeurs, Executives and Small Business Owners’ (MBA de Beira de Estrada: Lições de Estrada Secundária para Empreendedores, Executivos e Donos de Pequenos Negócios; em tradução livre). Esse livro foi escrito por alguns professores de MBA dos Estados Unidos que estavam cansados de ensinar os mesmos grandes cases para seus alunos. Para mudar isso, fizeram uma viagem de carro de 8 mil quilômetros, visitando 30 cidades de 27 Estados americanos. Nessa jornada, conheceram diversos pequenos negócios e empreendimentos interessantes, conversaram com seus donos e fundadores e compilaram as dicas, estratégias e ações desses profissionais nesse livro. Essa sim, é uma grande enciclopédia de cases que vale a pena esmiuçar de ponta a ponta, porque com certeza você encontrará algo para aplicar em um grande, médio ou pequeno negócio. Isso acontece porque são histórias próximas da realidade da maioria das pessoas, da realidade da maioria das empresas. Convido você a refletir sobre isso. Pense: em quantas empresas você acha que seria possível aplicar aquela sua estratégia favorita da Apple? Quantas teriam dinheiro? Quantas topariam fazer? Lembre-se, infelizmente, o mundo é mais conservador do que você pensa. Se chegar à mesma conclusão que eu – ou mesmo se for contra, acho que vale a pena como conhecimento – fica a dica, se possível, para lerem esse livro que, infelizmente, ainda não tem data para sair no Brasil, mas é possível comprar na Amazon Americana.

MBA de Beira de Estrada: Lições de Estrada Secundária para Empreendedores, Executivos e Donos de Pequenos Negócios; em tradução livre.

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Busco a simplicidade no complexo e vice-versa. Em tudo. Sempre. A unicidade (seja na visão ou na aplicação) me instiga/provoca, incessantemente, a desvendar um par, um oposto, uma contradição ou, até, um "ponto de fusão". Seja para complicar, seja para simplificar. O que seria da vida com um só ponto de vista?

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