A beleza submersa em Submarine

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Eu gosto muito de cinema. E o que mais me fascina na sétima arte é o potencial que ela tem de fornecer recursos visuais para que se conte uma história à parte, sem de fato contá-la. Se nos livros você pode descrever todo um processo de pensamento pelo qual um personagem passa, no cinema, você também pode fazê-lo, a questão é como — o que me leva ao filme Submarine.

O longa é de 2010 e conta a história de Oliver Tate, um jovem de 15 anos que não é o tipo de garoto que todos chamariam de popular e que não tem habilidades sociais lá muito desenvolvidas. O filme explora as relações de Oliver em diferentes esferas, se aprofundando mais (trocadilho não intencional) em sua relação com sua nova namorada e sua família, composta apenas por pai e mãe.

O diretor, Richard Ayoade, dá ao filme um ritmo que pode ser considerado lento por aqueles amantes de explosões, tiros e etc., mas a questão é que o tempo todo são explorados elementos em cena que complementam e explicam situações que, a princípio, estão paradas. A direção de arte e direção de fotografia do filme são de se elogiar, pois conseguem transmitir de uma forma muito bonita tudo o que o diretor quis passar.

Agora vamos à parte divertida, os exemplos.

Existe uma fala crucial no filme que vai guiar toda a fotografia e direção de arte:

“Hoje à noite eu me deparei com um texto sobre ultrassom. Ultrassom é uma vibração de alta frequência que é inaudível. Foi desenvolvido para localizar objetos submersos: submarinos, bombas de profundidade, Atlantis e tal. Alguns animais, como morcegos, golfinhos e cães podem ouvir em frequência ultrassônica, mas nenhum humano pode. Ninguém realmente sabe o que alguém pensa ou sente. […] Estamos todos viajando sob o radar, sem sermos detectados. E ninguém pode fazer nada sobre isso.”

O filme constantemente traz reflexões do personagem principal (inclusive a acima) em forma de locução (voice over), o que por si só já ajuda a reforçar toda a introspectividade com a qual o filme pretende tratar. Porém, a partir daí, cria-se também uma dualidade que vemos durante toda a película: uma divisão entre tudo que está sobre e sob o radar, visível e não visível, emerso e submerso.

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Isso ajuda a diferenciar a todo momento, o que está predominando na cabeça dos personagens, se são realmente os motivos aparentes, ou se esses motivos estão em algum outro lugar, perdidos em reflexões mais profundas (desculpe, o trocadilho saiu de novo).

Tudo aqui é uma grande metáfora, até o fato de que esses significados estão, de certa forma, ocultos dentro da obra. Para vê-los, é preciso que você assista a ela em “frequência ultrassônica”. É incrível observar o cuidado que foi tomado na fotografia para interpretar objetos normais dentro do contexto do filme — na cena abaixo, até o muro é usado pra dividir o emerso do submerso.
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Em certos momentos, a direção de arte também se destaca pelos elementos que coloca em cena. Tudo relacionado a água ou objetos marítimos, que sempre são cuidadosamente posicionados e enquadrados acima ou abaixo da cabeça do personagem, colocando seus pensamentos dentro ou fora d’água.

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Até a roupa de cama de Oliver tem golfinhos e as ondas do mar nela. O resto do quarto é todo azul, com barquinhos e tudo. É onde, muitas vezes, ele está sozinho e para pra refletir. É aquele tipo de coisa que quando você se dá conta, dá vontade de ver o filme inteiro de novo só para prestar atenção exclusivamente nisso. O que acho legal destacar, é que esse tipo de recurso é totalmente coerente com a história (também se não fosse acho que não teria tanta graça). Ele apenas enriquece o trabalho como um todo. Gostaria de ver mais diretores ousando neste sentido, até na propaganda, por que não?

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Muitos trabalhos audiovisuais usam somente 20% do que podem explorar. Mas pra ser justo, provavelmente só 20% das pessoas percebem quando esses recursos são explorados de forma mais rica, então deve estar tudo equilibrado, eu mesmo devo perder um monte de coisas.

Vamos fazer esse exercício, que tal? Questione tudo que está vendo quando assistir a um filme. Pense que tudo ali é resultado de anos (talvez não) de trabalho de toda uma equipe. Há trabalhos em que nada que aparece em cena é por acaso, e, se você gosta de cinema, é realmente um prêmio notar essas coisinhas, você se sente realmente como o “cinéfilo entendido sabichão”.

Me desviei um pouco do assunto, desculpe. Só para encerrar e concluir com algo relacionado ao filme: o que eu dizia sobre os recursos utilizados serem totalmente pertinentes, é porque acho que eles são apropriados de uma forma fora do normal. Você pode colocar detalhezinhos subjetivos em qualquer filme, mas em Submarine eles se relacionam com todo o enredo apresentado: o de um garoto que está constantemente tentando tatear os sentimentos de outras pessoas à sua volta, que apenas são apresentados por essas pessoas de forma subjetiva, o que o leva a cometer os erros clássicos da juventude. Se você não viu o filme ainda, eu digo que a experiência vale a pena e pode servir para que você comece a apreciar filmes com este tipo de linguagem (se você ainda não os aprecia). Então mergulhe, mas mergulhe de olhos abertos.

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Sim, já ouvi todos os trocadilhos possíveis com o meu nome (inclusive pensei vários deles eu mesmo). Sou redator publicitário, gosto de café, filmes, café, séries, café, escrever (dã), café, cerveja e café. [Insira frase com sacadinha e piada pra finalizar a descrição].

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